Enchente

Valverde volta a encher e moradores tentam salvar o pouco que resta nas casas

Na boleia do caminhão do Exército ou nas embarcações de pescadores, pessoas conseguem ter acesso à moradia, onde a água atinge mais de 60 centímetros de altura

Foto: Jô Folha - Exército auxilia moradores a recuperar o pouco que sobrou da enchente

A notícia de que a água tinha recuado e que cores no mapa da cidade que indicam zonas de risco mudaram de cor fez com que moradores do Laranjal fossem até a orla na tentativa de resgatar pertences ou até material de trabalho. Mas na manhã desta quarta-feira (15), além do frio com sensação térmica de 3°C, o cenário era o mesmo, principalmente no balneário Valverde. Nesse momento de angústia, surgem os anjos de farda e até pescadores, que após perderem tudo, se solidarizam com os vizinhos. 

Quem tentou buscar documentos e roupas em casa, na rua Cacequi, foi o casal Eduardo Arriada, 62, professor de História da Educação, e Gabriela Medeiros Nogueira, 52, professora na Furg e presidente da Associação Brasileira de Alfabetização. Eles resistiram até quinta-feira passada, até decidirem ir para cidade. A prioridade foram os animais domésticos e um acervo de 15 mil livros e documentos raríssimos, adquiridos ao longo de quatro décadas, como por exemplo a edição completa de Machado de Assis e autores pelotenses como Lobo da Costa e João Simões Lopes. "Meu container estava a 60 centímetros do solo, ainda levantei um metro para acondicionar as obras e mesmo assim, entrou água", relatou Eduardo. 

"Eu imaginava que poderia entrar água, mas não nessa violência. Ontem [terça-feira] tivemos aqui e não estava tão cheia assim, hoje [quarta-feira] já encheu. Então, a sensação desse movimento cíclico é devastadora e, ao mesmo tempo, de impotência e paralisia", disse a professora, que só conseguiu levantar os móveis de madeira. Para conseguir salvar o que construíram durante toda a vida, contaram com as caixas que carregam peixes para alimentar vidas. Elas transportaram conhecimento, escritas raras e um pouco da memória de Pelotas. 

De volta à casa, com água abaixo da cintura, Gabriela contou com a ajuda de um morador antigo da praia. Luiz Osório da Silva, 62, teve a casa e o estabelecimento invadidos pela água. Morador do Pontal da Barra, não perdeu o espírito solidário. Tentando relatar o cenário, ele lembrou de nomes de pescadores conhecidos, como Moscareli e Dodoce, que morreram este ano, e que ficariam muito tristes com a praia. "Eu também sou ajudado e acho que ela [Lagoa] enche mais. A água sempre vai subir, pois a natureza está dando o seu recado. Tiraram os aguapés para deixar a praia limpa, mas ela serve de contenção", desabafou. 

Ele conseguiu um barco para buscar a professora, que para chegar na rua Cacequi, quase esquina Espírito Santo, pegou carona na boleia do caminhão do Exército. O grupamento que veio de Jaguarão ajudou a família a levantar alguns móveis e seguiu em frente para recuperar mantimentos de um restaurante que ainda estava no gelo. Até mesmo o freezer foi salvo. O proprietário, exausto, não falou, só lamentou. Outro morador da rua Sarandi pediu ajuda aos militares para salvar a geladeira e, de rebote, conseguiu tirar a moto que estava na garagem da casa invadida pela água. "Estás vendo aquelas duas casas perto da minha? Estão com os portões arrombados. Infelizmente estão roubando no Laranjal", disse ele, sem se identificar. 

Patrulhamento

Para evitar os saques, vários barcos, com a presença de policiais, fazem patrulhas pelas áreas alagadas. A vice-presidente da Associação Comunitária do Laranjal (Asclar), Meri Padilha, disse que a Brigada Militar, Polícia Civil e Defesa Civil estão fazendo um excelente trabalho na praia e até formaram um grupo de comunicação. A preocupação de Meri é com que vai ser feito com o Valverde, pois a água que está invadindo essa região não é da Lagoa e sim da cheia do São Gonçalo, por meio do canal da Nova Prata.

"Hoje [quarta] à tarde está sendo feita a retirada dos moradores que construíram casa na borda do canal. Assim, o Sanep pode agir, até mesmo com um gerador que possa tirar a água, ou mesmo uma forma de contê-la. Mas para isso é preciso que o local seja evacuado". Para a ação, estiveram no local o Ministério Público e a Defesa Civil.

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